segunda-feira, 11 de junho de 2012

Quando a morte se avizinha ao amor

Quem no mínimo já assistiu ao filme/minissérie/peça "O Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna pode ver exemplos de que quando estamos próximos da morte podemos, mesmo que movido pelo medo ou desespero, tomar certas atitudes, como por exemplo a confissão da mulher adúltera e o perdão do marido traído no caso do padeiro e sua esposa. Quando a morte se avizinhou ao amor o amor pode alcançar sua plenitude.

Hoje, vespera de dia dos namorados, vi em meu perfil no facebook algumas fotos de mãos recém-aliançadas, pelo visto alguns conhecidos decidiram noivar pra curtir de maneira especial o dia dos namorados esse ano, afinal há quem não queira arriscar se sobrevive ou não ao fim do mundo de 2012 (rsrs). Ver essas imagens me fez lembrar de um caso que soube recentemente de parentes distantes, que por sua vez me fez lembrar outro caso que também me fez lembrar outro caso. Calma que vou compartilhar todos eles com vocês e, embora seja um assunto um tanto tenso para a véspera de um dia que se comemora o amor, vou falar também sobre o elo de ligação entre esses três casos... quando a morte se avizinha ao amor.

No caso mais recente, fiquei sabendo essa semana que um senhor, parente distante, que mora no interior não está mais reagindo à vida, não fala mais, não come, não levanta. Este já é um senhor bem idoso que ao lado de sua senhora tinha todo dia sua rotina e apesar da idade cuidavam um do outro, ficavam a noite na calçada na cadeira de balanço, etc. Porém o que importa, sempre juntos! Quem passa e vê de longe, na euforia da juventude, principalmente com essa juventude que temos hoje (eu que sou professor conheço jovens e jovens), pode ver somente "um par" de idosos, pode pensar que não dá mais pra ter aquele amor todo de antes por conta da idade e tal... Enfim, o fato é que hoje existem pessoas que não conseguem ver que na rotina pacata de um casal de idosos pode haver (e há), da maneira que a idade lhes permite, amor nos gestos mais singelos. Imaginem então a reação da esposa desse senhor quando ele passou a não mais responder as pessoas. Eu não imagino, eu sei. Pensar nessa senhora chamando pelo marido, pedindo pra ele falar, prometendo fazer algo que ele gosta se ele der algum sinal, perguntando se tá tudo bem e tal, como eu sei que aconteceu, é algo que me deixa os olhos úmidos. Há na sabedoria inteiriorana uma sensibilidade pra saber quando a hora está chegando, há também uma sensibilidade que alerta que após "ir" o primeiro do casal (principalmente se o casal já for idoso) o segundo não conseguirá viver sem o primeiro e logo também "irá". Desejo de todo coração que este senhor possa melhorar e voltar a viver seu amor junto com sua senhora, do jeito que só cabe aos dois.

Lembrando desse acontecimento recente e pensando nele, decidindo se escreveria ou não aqui sobre isso, lembrei da única vez que fui visitar alguém na UTI de um hospital. Era a Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza e assim que entrei, enquanto higienizava as mãos e vestia a roupa que o local exige, vi uma senhora muito humilde, magrinha, bem morena, cabelos brancos e de baixa estatura ao lado do leito de seu esposo que tinha fisionomia que lembrva bem homem do campo, bem humilde. A senhora não falava nada, somente ficava ali perto do marido ao lado da cama segurando a sua mão, talvez estivesse se sentindo como um estranho no ninho em meio a toda parafernalha da UTI, em meio a tantos enfermeiros ali dentro, talvez quisesse estar a sós pra cuidar melhor do marido, falar algo em seu ouvido, demonstrar mais o seu amor ali naquela hora em que a morte se avizinhava ao amor... Mais uma vez os olhos umedecem lembrando dessa cena, foi muito marcante pra mim.

Lembrar deste segundo caso me remeteu a um outro que aconteceu poucos meses após essa visita. Um parente do interior faleceu, a esposa não conseguiu aguentar um mês inteiro se não me engano e logo "se foi" também. Me impressiona ver como meses antes estive visitando os dois e nenhum aparentava nenhum mal que justificasse essa "ida" repentina, principalmente ela, que "se foi" depois... a morte se avizinhou ao amor e o amor que até então era vivido a dois não aguentou viver só.

Pensei um pouco se escrevia ou não esse texto, afinal como já comentei, ele traz uma carga pesada pra um dia festivo. De toda forma como já estou a poucos instantes de clicar em "Publicar" na janela do blogger, desejo que cada pessoa que se aventurar a ler até o final possa mesmo em meio a felicidade e a jovialidade em que se possa encontrar, perceber o tamanho da decisão que é dizer um SIM pra vida toda. Desejo que ao refletir um pouco sobre esse lado "tenso" do amor, a decisção de dividir a vida com a pessoa amada possa ser renovada com a certeza de que essa vida vai chegar um dia na época em que a pele já não é tão quente e macia, que você não conseguirá nem andar direito, que dirá ter uma vida sexualmente ativa ainda, dentre outras coisas que só vivendo pra saber.

Pra encerrar quero deixar aqui pra vocês uma foto que fiz em um momento muito especial, uma viagem que fiz a Gramado-RS, ocasião em que pedi minha namorada (hoje minha noiva) em casamento. Foto que encontrou hoje, mais de um ano depois de ser capturada, um momento perfeito pra mostrar como o amor resiste mesmo que venha o "tempo da delicadeza". Foto que, em um momento especial pra mim, decisivo pra toda vida a ser vivida a partir dali, anunciava a singeleza de pequenos atos, pequenos cotidianos a que todos nós, ou pelo menos a maioria, esperamos chegar.

A todos que puderem compreender a mensagem que tentei passar...

Feliz dia dos Namorados


5 comentários:

  1. Esse amor desses casais já bem idosos devem carregar suas mágoas, cicatrizes. E ainda podem talvez criar outros. Mas ainda assim, algo mais forte, algo que não se vê nos filmes (ou nas canções de amor), algo que nem é tão poético talvez, une esse casal. Sem mais explicação, apenas são.

    Meus parabéns a todos os casais, que nutrem esse desejo e carinho pelo outro.

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  2. Estou emocionada, André! Talvez pelo fato que eu esteja vivenciando um fato desse. Meu avô e minha avó, assim como esse casal, costumavam sair juntos, passear na beira mar, jantar juntos, assistir filme. Tudo. E depois, com o progredir da doença, ao contrário do que eu estava pensando, estavam sempre próximos. Sei que nos momentos de lucidez de vovô ele lembrava de vovó e sorria! É um amor lindo e que eu acho que nunca mais vou ver como o deles. São 75 anos juntos. 12 de namoro e 63 de casados. Poxa vida, e agora? e a vovó? Agora mesmo a minha mãe disse: o que vai ser da mamãe sem a companhia do papai. Minha avó falou que iria dormir o máximo que pudesse pra ter mais oportunidades de sonhar com ele! Talvez, a maior aspiração do amor de muitos casais seja chegar aí. Nesse momento. No limiar do amor(será?).

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  3. Velho, boa conclusão. O cara ser casado é um novo despertar na vida. As coisas são tão certas e perfeitas que amor é a rima imediata de dor. Não necessariamente que um acarrete o outro, mas acontece, pelo uma vez na vida: pelo menos na morte. Que diga o "Ghost"! Quero ver quem não se emociona ou pelo menos fica introspectivo ao ver esse filme. É transcendente e irradiativo. O amor que citei pode ser pra qualquer pessoa, animal, objeto, coisa, lugar... Tenho certeza que se um dia demolirem o anfi-teatro do dragão(cito show do maltz), será como se um grande amigo tivesse partido. Porém, infelizmente ou felizmente, só esse "sofrimento" e os seus pais que podem lhe ensinar alguma coisa. Abraço.

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  4. O amor é assim...sem fórmulas! =) Graças a Deus! Uma construção diária que exige muita paciência e dedicação.O mais cruel de hoje em dia é a idéia de que o amor deve ser sempre "alegria", e assim como a vida não é apenas feita de sorrisos...o amor também exige um pouco mais de companheirismo e cumplicidade...Lembro que quando vi esse casal lembrei da música "Último Romance" que diz "Ah vai!
    Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
    afim de te acompanhar"... Que o amor perdure na alegria e na tristeza...sempre que possível =)

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  5. Mirelle, o legal dessa música (Ultimo Romance) é que ele coloca essa frase q você citou e também coloca "Ah vai, me diz o que é o sossego, que eu te mostro alguém pra te acompanhar." Nenhuma mais que a outra. As duas em pé de igualdade.

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