domingo, 8 de julho de 2012

A melhor lembrança de nós dois

Devo assumir que já esperava, mesmo após o final inesperado, que você me ligaria quando estivesse em alguma dificuldade. Confesso também que estava por perto pois nunca estive longe, estava sempre observando, a postos, esperando o momento certo no qual ceder não era questão de escolha, era a única opção. Me vi em meio a um dos tantos filmes de relacionamentos neuróticos que assistimos, não esperava um dia estar na mesma situação. Apesar de pouco tempo, tivemos tempo suficiente para um grande estrago. Um segundo ao telefone foi mais do que o necessário pra que tudo virasse nada. Agora, mais uma vez ao telefone, tenho a chance de ouvir novamente certas palavras que por mais suplicantes que fossem, para mim só diziam "não te esqueci". Quem dera, o que ouvi no entanto foi um lamentado "me ajuda".

Não quis saber de que tipo de desventuras tive que salvá-la, apenas cheguei o mais rápido que pude no local solicitado. Com os filmes que vimos lembrei que nestas ocasiões leva-se a pessoa vulnerável para algum lugar em que se possa pedir algo para comer mesmo que não se coma, o alimento serviria tão somente de pretexto para conversar enquanto ele ficava pronto, criar o clima de romance e interrompê-lo com a chegada do garçom, esquecendo assim que estávamos a um passo ou um gesto de recuperarmos o tempo perdido. Me ofereci então pra levá-la para comer algo, até porque sua aparência estava lamentável. A modernidade porém destruiu tudo que aprendi com os filmes que tanto assistimos e fomos a um shopping. O mais impessoal dos lugares para pessoas que precisavam reencontrar-se consigo mesmas. Sem clima, sem garçom para interrompê-lo, malditos fast-foods! O silêncio inicial cumpriu seu protocolo, normal após algum tempo distante, no entanto entre uma mordida e outra começamos a falar naturalmente, eu de coisas que fiz nos raros momentos em que não me via destruído, em contrapartida soube também de um lado interessante de sua vida sem que me desse a conhecer o motivo pelo qual estávamos ali. Comecei a compreender que realmente iria só levá-la pra casa e, apesar de estar ficando mais descontraido, de certa forma estava me dando conta de que errei em fazer esta pausa para um lanche. O nível de descontração me deixou soltar uma brincadeira mais rude, ameaçando fazer algo caso você não se alimentasse direito, talvez nosso nível de desconhecimento, após tanto tempo, tenha feito a falsa ameaça soar mais rude do que nossa extinta intimidade permitia e te deixei apreensiva, realmente crente que eu a iria abandonar. Foi o suficiente para nos entendermos sem palavras e, certos de que não queríamos essa proximidade tão estranha de desconhecidos de infância, levantamos e tomamos o rumo de casa. Ok, me corrijo, de sua casa.

O silêncio que tanto nos separou enquanto estávamos juntos fez o papel oposto durante o trajeto para sua casa. Depois do estranho reencontro nada mais natural que, calados, cada um revivessem em pensamento os momentos que fizeram daquele estranho vazio algo chamado amor. Se eu pudesse nos ver como na cena de um daqueles filmes, diria que aos poucos nossos semblantes deixavam a dor de lado, ganhavam novamente certa leveza, timida por certo, seria pedir demais um sorriso que denunciasse ao outro o que sentiamos nas entranhas. Nada traduz a troca de olhares antes do abraço terno, nem o abraço terno antes de você saltar do carro, pela primeira vez nos entendiamos. Talvez agora possa me sentir livre. talvez agora possamos estar livres finalmente um para o outro. Talvez estejamos livres para sempre de tal maneira que a mais pérfida desventura te faça lembrar, não sei por qual motivo, de meu número de telefone, assim como eu poderei estar livre para não querer receber tua chamada. Ao menos pude perceber que pela primeira vez nos entendemos, e que o sentimento foi deveras verdadeiro. Mesmo que vá sem retorno após bater a porta e tudo que senti até agora volte a me destruir, até mais intensamente que antes, posso agora dizer que nesse encontro desconcertante pude guardar a melhor lembrança de nós dois. Vá.

(André Ramos - 08.07.2012)

4 comentários:

  1. Andrééé, que magnífico! Estou emocionada e sem palavras! De verdade! Escreves muito bem rapaz, mas isso não é novidade. Novidade é um texto dessa forma aqui! Massa André! Me mande sempre que tiver mais!

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  2. Esse reecontro pós separação, tentando superar (ou ignorar) o fato de que você e aquela pessoa tiveram uma conexão bem maior do que a amizade superficial que se apresenta agora ("Apesar de pouco tempo, tivemos tempo suficiente para um grande estrago") ficou bem apresentado ae. Parece aquelas histórias que dizem "Qualquer semelhança com pessoas ou situações reais é mera coincidência" e você responde "Nem a pau q isso não foi uma situação real!"


    Por fim, grato pela leitura :)

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  3. Muito bom mesmo!! Acho que todo mundo já passou por uma situação parecida... e vc conseguiu expressar esses sentimentos em palavras... me identifiquei muito! Obrigada pela leitura!! :)

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  4. Eu acredito tanto nessa tua maravilhosa capacidade de unir a realidade com o que sabes sobre o íntimo, talvez i teu íntimo que eu leio meio que faminta (meio pesado né? rsrs) mas é assim msm, com fome de continuar lendo, lendo, tlvz a coincidência de alguns trechos me deixe devorar cada vez mais cada linha expressa em cada detalhe e que não deixo de dizer que curto demais tua escrita, tuas ideias e maneira com que tu une td isso, meus parabéns meu caro André! ;)

    Carol Dias.

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