domingo, 22 de julho de 2012

O outro lado da moeda

Estava descendo no elevador enquanto anoitecia. Horas se passaram como segundos naquela tarde e, apesar de ter sido uma tarde maravilhosa, enquanto reparava os números decrescendo com os andares no painel uma nostalgia sem fim me tomou por inteira, coisa que não sentia desde a infância. A diferença é que na infância nostalgias eram sem razão, não tinham nome e sobrenome como agora. Saindo do elevador sem coragem de sair pra rua, voltar pra casa, voltar a vida normal, sentei no sofá do saguão e liguei pra você. A espera que alguém atendesse me fez o coração acelerar e me trouxe lágrimas aos olhos, daquelas que sempre estão acompanhadas de um nó na garganta. Quando finalmente você atendeu só perguntei se podia me ajudar a chegar em casa, marquei em um lugar próximo aonde estava pra não dar bandeira e fui te esperar. Na saída passando em frente a um espelho vi que minha aparência estava horrível, roupa amassada, cabelo assanhado, pensei então que quando você me visse, depois de já ter ouvido minha voz trêmula, iria se perguntar o que tinha acontecido comigo, mas não havia tempo para reparos e assim mesmo fui.

Quando entrei no carro você não perguntou, mas seu olhar de espanto não negava a surpresa negativa, não em tom acusativo, mas preocupado. Foi engraçada a primeira conversa pois lembrei de um filme qualquer que vimos certa vez, onde o cara levava a garota em apuros para comer, querendo criar um clima romântico, você havia me perguntado se eu estava com fome, de fato não estava com fome naquele instante, mas não comia nada desde o almoço e decidi aceitar o convite, até pra ver se você iria querer imitar o tal filme. Não foi surpresa, diria até que foi previsível você desistir de bancar o conquistador e me levar pra comer em um shopping. Não sei porque, já que não tinha, ou pelo menos acreditava que não tinha nenhuma expectativa além de chegar logo em casa, mas ir pra um shopping me deixou um tanto decepcionada, a fome que não era das maiores sumiu por completo e ao sentarmos à mesa quando disse que preferia não comer nada me espantei com o tom severo que usou quando falou que "ou eu comia ou você me deixaria ali e ia embora". Não sei se era brincadeira, não sei se era sério, se você tinha se chateado por eu desistir de comer  só depois de estarmos ali naquele lugar. Foi uma surpresa, um impacto pra mim eu diria, pela primeira vez eu não sabia exatamente o que você queria dizer, pela primeira vez eu te via como a um estranho, até mesmo quando nos conhecemos, seus trejeitos e sua forma de lidar comigo te puseram em minhas mãos, resumindo, eu não estava mais no controle.

Enquanto comia, você ficou apenas olhando, ao menos a conversa fluiu um pouco mais. Nesse instante já nem lembro o que conversamos direito, só lembro que quando estávamos a caminho de minha casa o silêncio imperou. Passada uma dezena de semáforos em silêncio, olhei pra você e você sorria um sorriso tímido e escancarado, o que me levou a sorrir também. Sorri pois pela primeira vez em que me senti fora do controle, na verdade eu não estava. Podia ser 18h, como era quando você me buscou, ou uma da manhã, você iria estar ao meu dispor, talvez até mais do que esteve, pois se eu chamasse de madrugada o caso poderia parecer ser mais urgente. Fiquei feliz por estar novamente no controle, mas fiquei mais feliz ainda por perceber que naquele momento mesmo sem que tivéssemos nenhum tipo de relacionamento eu senti que recebi mais carinho de você naquela meia hora um tanto tensa do que uma tarde inteira com a pessoa com a qual de fato estive.

Nos olhamos estranhamente e antes de eu descer trocamos um abraço frio. Desci, bati a porta e quando me virei já não havia sorriso em seu rosto. Não sei se te perdi de vez agora, mas o silêncio que ficou e a imagem de seu carro se distanciando na rua deserta pareciam responder que sim.

Um comentário:

  1. Incrível como certas coisas são vistas de formas tão diferentes por pessoas q as compartilha. Um mesmo abraço pode ser frio ou tenro, dependendo de quem fala.
    Tanto se perde no sub entendido, tanto q talvez não sobrevivesse ao mundo físico, mas q poderiam mudar o rumo da história.

    Podemos ser qualquer um desses personagens em qualquer dia de nossas vidas, só não sera um dia qualquer

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